LANTERNA
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Sábado, Maio 28, 2005

DEPOIS DA CACHAÇA

A ressaca me paralisa. Uma dorzinha insiste em alfinetar o centro da minha testa. As palavras fogem, quando não passam por passar... salvo as impertinentes, aquelas cuja lembrança só promove o asco. Agora, duas se insinuam vindo, estupidamente. Uma ou outra vez, ao me olhar nos olhos, a mais estúpida delas se agacha, levanta e se agacha, e, sem nexo causal, entre a descida e subida, reclama e gargalha. Loucas, bestas, medíocres, apareceram do nada. O que querem ? Nada. A outra, mais comedida, senta-se do meu lado, calada, e, meio murcha, aponta-me outras irrelevantes palavras. Nem ligo. Vou comendo devagarinho, tento não desgrudar o olho do prato. Desde ontem, bem sei, fiz de mim um trapo, mais pra lá do que pra cá, ilógico, burro, abestalhado, fui bêbado, agora desidratado. Pegue-me, segure também minhas palavras, outros farrapos d'alma, soque tudo num bom saco, jogue-nos, finalmente, às baratas.


Sexta-feira, Abril 01, 2005

ALEGRIA DEFORMADA

Há cerca de cinco anos minhas forças se esvaem, mas nada que comprometa a carcaça , tudo desseca mesmo é a alma. E a aridez me toma, meus olhos já focam duros, inquebrantáveis. Minha carranca, meus inimigos, o desprezo por tudo e todos, a vida medíocre, são sombras emaranhadas à realidade, um bolo só ladeira abaixo.

Há uns mais detestáveis que outros. Os pedantes, por exemplo. Todos devidamente emplumados, vejo-os por todo canto. Em certos lugares conseguem ser mais odiosos. Ontem, passei os olhos diante da TV, ouvi com desgosto alguns hipócritas de sucesso, tive a impressão de que são ardorosamente ouvidos. Parei noutro show de enganação, um sujeito entra na cena, canta alguma estupidez melosa, o auditório aplaude, mulheres choram, um verdadeiro horror. Segue-se outra atração serelepe, que joga uma opinião à-toa, as mulheres escutam, aplaudem submissas, abririam facilmente as pernas. E o apresentador balança a cabeça, concorda, oferece o cantor ao auditório como o cafetão entregaria suas "damas". Prostitutos.

Hoje não posso trabalhar. Os processos se avolumam em cima da mesa. São páginas e mais páginas de pendengas civis, separações conjugais. Sim, como há separações conjugais, o topo das barras estatísticas. Tento concentrar-me tão-somente na labuta. Nas primeiras páginas vou bem. O problema me aparece pelo meio, a cara gorda de minha mulher emerge pelo centro dum despacho. Como ficou gorda, a desgraçada, antítese de minha conta bancária. Penso em engordar as estatísticas, perco o fio da meada, volto às primeiras páginas.

Desejo a hora do almoço, não irei logo para casa. Quero respirar. Quero alguma solidão franca. O mundo tinha-me deformado a alegria. Ela só me aparece azeda, com um sorriso glacial, indiferente a tudo. Minha alegria é uma espécie de vácuo, não gesticula, não fala nada, nem beber bebe. Sento-me com ela num canto qualquer duma praça, ambos frios, contentes com o tempo a passar. E que passe rápido...


Sábado, Março 19, 2005

CONFISSÃO DUM COVARDE

Eu já não me assusto com a estupidez humana, acostumei-me e, não raro, sou até cúmplice por omissão. Assim, vive-se melhor, muito melhor. Ao menor sinal de pequenez humana, pronto, tolero e concordo com tudo, sem tirar nem pôr. Ou simplesmente lacro a boca e ouço, insuspeito, o interlocutor, como se sua opinião à-toa fosse o supra-sumo do sumo. Enfim, virei mesmo um covarde.

Ora, aqui, entre os homens do cotidiano, reprimir a idiotice significa não só se alijar do mundo, mas, também, tornar-se um apátrida sem refúgio estrangeiro, condenar-se à chacota alheia, à solidão completa, à morte. Ora, em cada cantinho mais popular do mundo, quem quiser que veja, reina pelo menos um grandessíssimo idiota. Ora, há muito toda sorte de asneiras são representações fieis da verdade, ninguém que se atreva a negar. É claro, há os lugares sui generis - fonte dos tais saberes perenes - mas estes são castelos de marfim, salões de pouco uso, quartos hermeticamente fechados.

Ademais, falo, sim, do dia-a-dia, falo daquele homem que vai ali, por exemplo, um dos muitos do gênero em questão ( conheço-o bem, chama-se Agenor) - cabelinho repartido a três dedos acima da orelha, espremido de lado, vã tentativa de abrandar a careca que lhe acentua o cocuruto. O passo é severo e longo, anda como se demarcasse poder, os braços vão abertos, lembra um homem-cabide, olha olho no olho, nem o coitado do vira-lata lhe escapa. É o tipo do homem de valores mesquinhos e machistas, que não escuta ninguém, fede nos fins de semana a pinga barata, sofre de excessivo ciúme da filha adolescente, resolve suas pendengas no muque e, entre cada uma de suas frases, o que lhe lustra mais é o palavrão. Vida estúpida. A sua mulher para um lado, ele para o outro levando consigo o azedume, uma barriga estupenda de banha e a necessidade desesperada de ser senhor de si mesmo.

Pois é, visualiza-lo é lembrar-me de outro infeliz, um ladrãozinho de esquina que quase morreu linchado, um pretinho duns quatorze anos, magrelo e esfomeado, cheio de feridas, de olhos verdes, nunca me esqueço, pele muito negra e olhos dum invejável verde de musgo. Lembro-me também dos gritos, daquela ruma de embrutecidos, dele meio morto no chão, deram-lhe pancada de arrancar lasca. Fomos em seu socorro a tempo, eu e o outro. Depois que conseguimos silenciar os socos e pontapés, aproximou-se Agenor. Olhou de través o negrinho no chão e disparou alternando a ordem do palavrão: porra, se morresse, morria bem morrido.

Realmente, aquelas palavras inspiraram simpatia. E todos ao redor puseram-se a falar com entusiasmo. No começo não entendi a inteireza do que diziam, aliás, vinha-me o sentido completo pelo vento, por imposição de certas palavras: verdade, perfeito, isso, justo, mata, miserável, safado. E as tais palavras se multiplicavam em outras, não ditas, e mais outras, veladas. Fora tão repulsiva cena que me embrulhou as vísceras. Por alguns segundos, a inclemência absurda, os trejeitos da ralé, o ar de justiça popular amputada, impeliram-me a também entrar no rol dos culpados. Olhei o outro, estava como sentinela, valente, zelava bem de perto o ladrãozinho em decúbito dorsal e esparramado pelo asfalto. Estávamos sozinhos, desamparados, não éramos nada - eu, o outro e o ladrãozinho. Se morrêssemos, morreríamos bem morrido, pensei, enquanto minhas pernas bambeavam.


Quinta-feira, Março 10, 2005

BRUTA FLOR DO QUERER
( Dedico à Clarice Lispector)

Entrou no carro, quis circular à-toa - as ruas estavam livres, inofensivas, sem viva alma - podia voltar-se a si mesmo, sentir-se melhor. Dedicar-se à vibração de Bach. Ouviria Chico, depois Caetano. Tinha o Mato Grosso, o Tom, tinha a Elis, até o Cazuza. Preferiu, imediatamente, o anestésico de Chopin. Mal deslocou a embreagem, já amolecia a carne.

Queria ser senhor do próprio destino, passo a passo. Segunda marcha, terceira, quarta, quinta, oitenta quilômetros por hora pela Magalhães Neto. Penitenciou-se por seguir assim desmedido, reduziu o velocímetro, sentiu-se também reduzido. Fez um bico, encaixou Cazuza no suporte, acelerou o mais que pôde, e desacelerou porque desacelerou, sem mistérios ou expiações. Aí já se pensava irremediavelmente o senhor. Os cigarros ? Ao lado do coldre, bem perto. E antes de apalpar o maço, desagasalhou o revólver, jogou-o entre as pernas, como após, do mesmo jeitinho, fez com os cigarros.

Toda história continuou sem diferença, ia em misturas. Ele foi a um tempo covarde e destemido, sério e risonho, frívolo e safado. Havia nos seus olhos um distanciamento calmo, e entre os dentes apertava os próprios lábios. Pelo menos, dois seres opostos viviam em seu íntimo - um conjunto esquisito de lucidez e confusão. Sou homem, repetia a si mesmo, homem. Repetia e mordia os lábios. Ia como quem impelido por fantasmas impiedosos. Parou em Itapoã para respirar. Fungou alto, saiu do carro e fincou os dois pés na calçada. No começo, ainda criava raízes. Os miolos, contudo, pipocavam em imagens indesejadas, e para livra-se delas danou a andar, as pernas seguiam maquinalmente o trilho do nariz, linha reta, sempre. Como ninguém lhe empataria o tráfego, acelerou, trotou, quis correr e correu. Só recuou pelo cansaço, aos poucos, em ordem decrescente - não mais correu, não mais trotou, parou, definitivamente. As mãos foram pousadas nos joelhos vergados, cada joelho com sua mão correspondente. Cada coisa em seu lugar. Coração disparado, suor transbordando das rugas da testa, respiração ofegante, um silêncio sepulcral. E, logo, as imagens, sempre elas. Ainda e sempre: infernais. Elas corroíam a mínima esperança desse infeliz. Não eram imagens, mas uma imagem. Uma que se ramificava em várias. Um corpo humano completo saboreado em pedaços, parte a parte.

O sol tostava e, pela beirada da calçada, poças d'água, sob aquela luz, vestiam-se de várias cores. Num momento, esverdeadas, noutro, amareladas. Mais adiante, umas extremamente negras tornavam-se cinzas. Sob aquela luz, também via-se uns gatos pingados deitados a se amorenarem na praia, multicoloridos também, mas a cor imperativa irradiava estupidez. Três branquelas expostas, assim, às duas horas vespertinas, antes de tudo, significa estupidez. Ademais, estúpido já se imaginava até o infeliz dos fantasmas, enquanto desabotoava o colarinho, queria se refrescar. Depois, em autopiedade, preferiu se sentir apenas mais um tantã como tantos, alguém que quer e ao mesmo tempo resiste. Coisa de louco, pensou, se quer é porque quer, basta. Por que não ?

Por que não ? Essa pergunta rodou pela sua cachola. Mas não sou doido o suficiente, recriminava-se (da boca pra fora). Sim, era, era doido a altura, e há anos, há milênios. Nasceu assim. Sou sujeito homem, cutucava mais uma vez, inutilmente, os próprios instintos, como se os quisesse afrontar. Súbito, tocou-se em tecla sensível ( foi puto e merda, foi... ). Eu sou é homem, capitão daqueles...homem, gritou. Suportou o desafio, estufou o peito, ficou ereto e marchou, literalmente. Quatro passos depois, rodou sobre os calcanhares, perfilou-se militarmente, olhando, longo, o nada. Aliás, não o nada, olhava em vão. Sem sucesso quis estabelecer fixação num ponto específico e claro, real. E tudo lhe parecia turvo, embaçado, pois inútil, por mais claro e real. Vendo-o ali parado, em posição de besta, olhos bem abertos, ar de suspeição, um jovem lhe ofereceu o ajuste.

- Como ?
- Um programa ?

O milico avançou um passo, um bolo de palavras na goela, o coração a pular, vencia a distância que o separava do prostituto. Pouco a pouco ia se livrando de peso incomodo, tirou o pudor, deu um passo, desfez-se do medo, outro passo. Numa tacada, foi-se facilmente sua mulher, não mais havia nem seus filhos nem nada. Ao se aproximar do jovem, frente a frente, estava praticamente nu: só ele, a farda verde-oliva, a água na boca, os símbolos nacionais em três medalhas e os fantasmas.


Domingo, Março 06, 2005

JESUS SILVA


Vamos para Borbotam - duas ou três vielas riscando a sequidão avermelhada da sertania -, quando se findava as últimas horas do dia e quase todas as casinhas, rudes arquiteturas de pau e barro, amontoadas a trouxe-mouxe, cada qual devidamente atulhada de gente, dormiam cobertas pela imensidão profunda da noite. Ouvia-se apenas o contumaz e inevitável zunzunzum da parentela e alguns poucos ruídos de passagem. Era ano de muito chocalho e pouco pescoço para os nativos.

Iluminando a cria, lá pelo fundo do quartinho espesso, a lanterna de querosene dependurada, vertendo sua pequena chama vacilante, temida ao sabor do vento que invade os remendos da porta, dava um efeito turvo onde perdurava a escuridão. A parteira, espalhando sons guturais, tangia da janela um ou outro rosto transitório, um ou outro semblante opaco, como que mesclado, visto ser figura de homem e sombra. Era precisamente véspera do natal, dia vinte e quatro de dezembro, e que, apenas mais um entre os dias de Borbotam, logo passaria sem que seus habitantes atinassem no fundo a diferença da data. Lá, onde a pobreza fez morada, as preocupações não iam além dos sentidos, das coisas imediatas, da apatia das horas. Ele magro, tez ainda azulada, erguendo os membrinhos agitados, vivia as primeiras horas de sua infância.

Às duas horas matinais, levantando-se do caixão de madeira, a parteira avizinha-se da beata acocorada, sonolenta, do outro lado do jirau.

- ó ó, comadre ! disse a beata, estirando o espinhaço.
- Puxa mula, que quem acomoda, não incomoda. Falou a parteira sorumbática.
- Iche ! tô só rezando, pé de rebolo. Retrucou a beata, enquanto coçava as vistas.
- Pobre, magro como cavaco de aroeira. Observava a perteira, olhando a criança nascida.

A beata estirou as pernas, alargou os braços, pensou em sua cama. Doía-lhe todo o corpo. A parteira, a mãe e a irmã da mãe entreolhavam-se caladas. A beata, depois de beber uma cuia d'água, fitou o grupo. Uma conversa se iniciou. A parteira chamou a beata, que desviou o olhar, com dolência, e pregou-os no menino. Todos estavam com os corações apertados por ver uma coisinha tão miúda e mofina. A parteira não resistiu, suspendeu o recém nascido do jirau de varas, acolhendo-o contra o calor do peito. A beata pousou a mão nas costas do rebento.

- Peste, sapeca excomungado, nasceu !

As horas passaram longas naquele dia. Todos tinham por certo a morte do menino, nascido só cabeça e olhos, e apinhavam-se esmorecidos ao lado da mãe. Essa, contendo o choro, procurava manter-se forte, o que logradamente o fazia. Num raio de vinte léguas, os povoados da região, entre outras carências de que são vítimas costumeiras, tinham a de não possuir um mero posto de assistência.

Perto do crepúsculo, a aldeota começava a labuta diária com os matutos saindo cabisbaixos dos barracos. Mas praticamente todos os Silva dormiam, amontoados num casebre, descansando da longa vigília, estirados pelas esteiras de palha ou pendurados por dentro das redes. Sob a janela baixa que dava para os fundos do recinto, ao lado dum caixão de querosene, sobre o qual se destacava um retrato da Virgem Maria e um toco de vela frio, o canto destinado à mãe e ao menino.

A parteira levantou-se, estralou os quartos, umedeceu o rosto na água do pote, avistando os primeiros raios de sol adentrando pelas frestas. Agachou-se perto do rebento, enquanto pensava irresoluta, foi longe o pensamento, que embirrou por algumas soluções. Animou-se muito com uma idéia. Numa forte convicção, achou de ter a resposta de São Benedito, Ossain, seu guia espiritual. Se o menino passasse do terceiro dia, ia preparar fumo e mel na intenção do santo. Ergueu-se animada a procurar um pedaço de pano, como convém ao gosto do santo, para amarrar no pulso do rebento.

A mãe, que olhava maquinalmente a tudo, fechou os olhos e penosamente ia deitar-se de lado, quando a parteira danou a falar. Estava eufórica, sacudia na mão um retalhinho de pano azul.

- E hoje é natal, comadre, Ossain não falta...
- Natal ?

Com a pergunta da mãe o pai do rebento acordou.

- Juvêncio, hoje é Natal ! Repetia a mãe.
- Enquanto coçava a testa, Juvêncio, o pai, resmungou: então, taca Jesus como nome do menino.

A parteira gostou da idéia, riu e agachou para mexer no menino. Mas, tadinho, às cinco primeiras horas desse natal nordestino, Jesus já dormia frio, durinho, com a boca entreaberta e olhos que boiavam pálidos, sem umidade, esbugalhados e mudos.


Domingo, Fevereiro 27, 2005

O CHATO

Tenho plena convicção de que sou chato, aliás, muito chato, muitíssimo. Talvez seja assim por herança genética, não sei nem me importa. O fato é que já houve até um tempo em que pensei melhorar - não de supetão, queria seguir em doses homeopáticas, devagar, um sorriso amável aqui, um cumprimento educado acolá. Mas o que era pretensão fogosa virou cinza fria rapidinho. Ainda bem.

Porém, o problema não reside só em mim, claro que não. O meu crime sempre foi praticado em concurso, há co-autores, existem as contribuições pontuais. Hoje mesmo, por exemplo, encontrei um conhecido, torcedor compulsivo, um desses miseráveis que saem buzinando pelas ruas logo depois dum título conquistado por seu time de coração. Veio com o braço erguido, todo feliz e serelepe, sacudia a mão espalmada e gritava: "cinco, cinco, cinco ! ". Ora, tenha santa paciência. E havia uns três ou quatro com ele. Todos devidamente uniformizados - corpo e alma. Todos no mesmo coro: "cinco, cinco, cinco ! ". Um deles, a pretexto de beijar, praticamente chupava o emblema do Esporte Clube Bahia estampado numa bandeira. Lastimável.

Rezei para que eles sentassem longe da minha mesa, inutilmente. De longe, meu conhecido já ordenava - "Garçom, uma gelada praquela mesa ali, ali... ó !". Puta que pariu. Restou-me rezar para não praticar minha chatice contumaz, também inutilmente.

- Caco, é Bahia, Caco, é Bahia ! Gritava meu conhecido, já devidamente ajeitado numa mesa coladinha a minha.

- Maravilha... respondi pelo canto da boca.

Depois surgiu uma cantoria interminável, praticamente o bar inteiro se contaminou, todos juntos para o Hino do Bahia. Depois veio os pulos e empurrões, os abraços dos desconhecidos, brindes, até beijos. Depois veio uma chuva de cerveja, pingos e mais pingos caindo de todo lado, em todo canto, observei basicamente os que caiam dentro do meu copo. Por fim, meu conhecido veio me abraçar. Aí foi demais. O miserável estava bêbado, todo seboso, gritando tal um louco... aí foi a via crucies. E não veio sozinho, levou os comparsas. Todos resolvidos não só a me abraçar como também a me fazer de não o quê. Fui jogado umas três vezes pra cima, ia e voltava a bel-prazer do alheio, levava sempre comigo aquele velho sorriso choco. Pois é, brasileiro é mesmo um povo que sabe se divertir, e melhor ainda se for à custa de alguém.


Terça-feira, Fevereiro 22, 2005

DOUGA


Ainda naquele fatídico dia, depois que se desmanchou todo pelo asfalto, porque, peso do impacto, não sobrou muito do corpo cadavérico, abandonado, mistura meio rubra de carne e osso. Sem dizer do seu espírito, incrustado por dentro da carne, ali, quietinho, ficava como quem dormiria eternamente , irremediável. E, não sei, possivelmente sim, porém tenho minhas dúvidas se não seria esse o destino natural de todo espectro, este de ficar inerte, ali, aninhado tal morto, unido ao próprio corpo desgraçado. Entretanto, pura magia, uma voz fantasmagórica soou - sempre ela ! - vagarosa, solene, absolutamente assustadora, voz encantada das alturas, traspassava a atmosfera terrestre. Escuta - disse a voz, enquanto pousava uma ponte de nuvens sobre o calçadão - levanta-te e corra !

Levantou-se sobressaltado o morto. Não tomou consciência imediata dos fatos, mas pressentiu no íntimo a situação. Súbito, esbugalhando os olhos diante do corpo, seu corpo, carcomido, fraturado, disforme, bola de sangue e carne diante de si, invadiu-lhe o terror da confirmação. Iniciou um grito encorpado, que ficou pela goela, depois olhou adiante a ponte excêntrica meio metro suspensa. Sabe-se lá por qual cargas d'água, a bendita se encolhia rápida entre o céu e o chão. Saindo intempestivo, correndo, tropeçando muitas vezes, o espectro distanciou-se do próprio corpo. Por fim, a moda João do Pulo, quicou três vezes sobre a extravagante condução. Não demorou, pisou aturdido em solo lunar.

Na recepção, logo percebeu um habitante acomodado num dos pequenos montes à direita de quem vem da terra. A criatura comportava-se passivamente, como passivo era todo lugar. Apenas olhou o recém chegado de soslaio, quando ele despontou pelo bico da ponte móvel, e, incontinente, num gesto de desdém programado, distanciou as vistas deixando cair completamente as pálpebras. O pobre morto deteve-se intranqüilo.

A criatura, ainda em nada, ou quase nada, se parecesse com um representante do céu, possuía, soube-se depois, posto dos mais importantes. Era como o porteiro do local. Uma espécie de São Pedro lunar. Ninguém entrava por aqueles lados sem sua expressa permissão. É certo que não cuidou das formalidades. Sequer apareceu a rigor, digo, como certas figuras divinas que ornam os quadros sacros, trajando suas túnicas alvas, aladas, inspiradoras daquela paz melancólica e resignada, com suas auréolas de ouro e olhinhos azuis. À primeira vista, com boa distância, assemelhou-se a uma projeção de homem. Estava sentado, mas suas pernas e braços longos acusavam excelente estatura. Metro a metro, confirmava-se a aparência avistando os cabelos negros, desgrenhados, a cara triangular, limpa de pêlos, destacando um poderoso nariz adunco. Era impossível não enxerga-lo um homem como outro qualquer, escarrado e cuspido. Então, a plenos pulmões, sem a cerimônia pertinente a tais casos, de sua boca saindo uma voz levemente grave, vertendo sons como se há muito estivesse calada, ia tecendo considerações diversas e francas. O homem, e era muito provavelmente uma espécie não identificada de homem, contido de carne e osso, pois não tinha estado de espectro, ou plasma, ou coisa afim, como supomos ser particularidades de tais seres, caminhou ao redor dum pequeno monte anunciando, com olhos evasivos, indiferentes se alguém lhe dava ouvidos, que estava cheio do ofício de porteiro e, dia desses, iria dissidente para outros espaços superiores.

- E que meus sentimentos, principiou a falar o ser divino, não tenham mais lembranças dos louros do pecado original - obra de ficção das mais cruéis. Vou a lugares onde a consciência não se aperta ou se quebra facilmente. Aqui, onde as almas idiotas fazerem morada, não há espaço aos altos pensamentos. Aqui os sábios só encontram o silêncio pálido e ignorante. Ademais, depois que homologaram o mandamento milenar, toda sorte de imbecil tem acesso aos melhores lugares do cosmos. A lua , que abrigava no tempo da idade do ouro as mais celebres cabeças universais, agora vem se emporcalhando pelos farofeiros das camadas mais inóspitas. Outro dia, uns quatro ou cinco brocos queriam porque queriam esticar a perna dum coxo recém falecido até igualá-la a normal. Acreditavam ser uma deficiência congênita obra de algum espírito maligno, demoníaco. Ao diabo com os pobres de espírito !

- Pobres de espírito, bem aventurados ?...

- Como ?! Perguntou o anjo, dando um riso choco, descompromissado.

- Jesus Cristo, o sermão, o da montanha...

- Meu caro espírito, principiou a falar o anjo com um semi-sorriso, desses que coroam ironias, não sei de quem fala, mas deve ser homem dado a passar sermões, não ?!

- O messias, não sabe ?... Arregalando os olhos, repetia o morto.

- Ah, sim ! Aqui, volta e meia, alguém propagandeia os feitos de algum. Desses, no céu há quase uma população. Canto a canto do universo, onde consta a existência dos planetas mais efêmeros, um ou outro de tal naipe costuma declarar alguma boa nova. Geralmente são supliciados a bem da ordem pública. Já contam com uma coligação das mais fortes na décima terceira, na vigésima quarta e na quadragésima quinta dimensão astral. Nessa última amealhou seguidores influentes. Certa feita, folheando o jornal oficial, dei-me conta de suas cartilhas. Possivelmente o seu messias deve ter proferido algo conforme o mandamento milenar em vigor, pois uma das metas principais destes pernósticos, pelo que vejo, é reunir os mais simplórios corações em seus ritos e, na esperança de cativá-los, esticam laboriosamente os braços da fé até os ambientes da própria sombra. Hoje mesmo observei uma cerimônia de iniciação de cem eleitos a messias numa dessas montanhas lunares. Irão nos próximos dias protocolar pedidos de renascimento num planetinha qualquer, de preferência onde paira no destino dos nativos a mais completa descomunhão. Eles despencam atrás da desarmonia como os corpos sucumbem à gravidade ! Sempre estão a fustigar nos arquivos celestes a morada do câncer social, o habitat da morte descabida, as fronteiras da fome, da doença, da dor, catalogam as terras mais selvagens de todo sistema universal para designar colaboradores. Já criaram até o que chamam de "mapa do mal". Se seu profeta alerta para o fato da credulidade ser melhor dos atributos para crença, há boas chances de pertencer ao instituto.

O morto mal escondia o desconforto. Determinou que era certo ser prisioneiro do próprio cabrunco. O tinhoso, disfarçando o sorriso, contabilizava no fundo seus ativos. Revendo toda ridícula situação ( aquela ponte levadiça, esse anjo perequeté, uma morte toda besta) encontrou várias sentenças. Por conseqüência, abobalhado, o defunto sorriu amarelo.

Douga, como se nomeou o anjo, depois de expor suas considerações, cerrou a boca. Não falou em mais nada. A princípio, o morto pensou em escapolir sorrateiro. Porém, algum tipo de esperança sórdida, impenetrável, aprisionava seu coração. Foi-se cinco, dez, quinze minutos de silêncio entre eles. Assim, as alterações de humor apareciam pelos gestos. Querendo mandá-lo às favas, o morto fechava os punhos. Ele, o anjo, expressando um desprezo agudo por tudo, franzia a testa, imóvel, e olhava a paisagem. Às vezes passava a mão pelo queixo pontudo. Noutro momento, fitava as coisas vagamente. O anjo não se irritava, não ficava sequer aflito. A indiferença de seus olhos permanecia dura, inquebrantável. Nem o desconforto do recém chegado vacilava sua ausência. Com efeito, o morto começou a viver de imaginação - ao longe, num buraco, uma saída qualquer, ele necessitava de qualquer saída. Subitamente, levantou-se a criatura lunar, estendeu a mão, sereno, inclinando-a espalmada e mudou o tom de voz para um quase cochicho, sem chiste ou profanação. À direita, mostrou o planalto lunar com seu solo sem vida, coberto de pedras e poeira vulcânica. À esquerda, algumas rochas alaranjadas, oxidadas por nuvens de vapor, beiravam um imenso abismo de um bilhão de anos. Em frente, face sempre oculta para nós, terrenos, estendesse outra planície porosa, esburacada, nada incomum. Além, avisou da imensidão coberta de montanhas e sulcos profundos. Era a lua mesma da terra, lua de Galileu a Armstrong. Consta, disse Douga, com pendor científico, que a natureza aumentou a rotação terrestre até ocorrer a completa fusão. Apontou a cicatriz terrestre, penso ser o pacífico, como o efeito do rompimento entre a terra e a lua, enquanto dizia:

- Viu ?! Nada além, nada incomum... e sua morada é toda superfície.



Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

O DESCONFIADO

E ele começava: o que são essas paixões ? Elas que ficam a todo instante agora circulando meu corpo e alma, como insetos beirando luz. Antes, já cortei mais de uma pelo talo da raiz. E por quê ? Porque, com indubitável sentença da intuição, eu sentia que a realização de todas estava mais a depender dos outros que de mim. Matei-as em benefício do próprio pescoço. E hoje, desconfiado, vejo que outras mais estranhas povoam meu peito. São paixões mexeriqueiras, que brilham intensas, devoram a alma e, por fim, prostam-se murchas ou, sorumbáticas, partem em vão.

Então, por enquanto, sinto que a minha paixão favorita é extinguir paixões. Até alegro-me em vê-las mortas, espalhadas de barriga pra cima ou de bruços pelo chão. E hei de continuar só, barrando a minha esperança, os meus sonhos, só até o dia em que meus golpes, por mais fortes e precisos, não resultem no costumeiro vazio, visto ter encontrado a mais combativa das paixões - talvez... mas... não ! Quem ? Como ? Ora, paixões... são restos, folhas secas, uma noite em combustão.


Terça-feira, Fevereiro 15, 2005

Eu amanheci quase do mesmo jeito que anoiteci, exceto por um fato houve diferença: o astro rei, senhor até da noite, não saiu contumaz, pois, tímido, parecia andar nas pontas dos pés.

A princípio, cogitei desabar completamente as cortinas em detrimento dos convidativos raios matinais, porém eles chegaram tão fracos que mais pareciam me acariciar a face. E tanta discrição me fez cativo. Pensei bestamente que o sol, nesse meu amanhecer, sentiu alguma compaixão de mim. E foi só isso. Fiquei um bom tempo na cama, com aquele calorzinho bom tomando minha face e me deixando ficar. Hoje o sol não quis ser senhor. Hoje posso dizer que realmente amanheci.


Sábado, Fevereiro 12, 2005

FEIJÃO COM ARROZ

Na Catedral, o emendar dos ritos
Já é hora dos cumprimentos
Na paz e em Cristo

A PAZ DE CRISTO
A PAZ DE CRISTO
A PAZ DE CRISTO

Não sendo tarde
O padre campeia
Corre o hino da morte à vida
(sesteia)
É a ingestão do mito !
Vez e hora da fila, enorme,
Para o corpo de cristo

CORPO DE CRISTO
CORPO DE CRISTO
CORPO DE CRISTO

Tudo foi marcado
As horas indicam urgência
Até o miserável tem sua cadência
O chão, seu assento
A porta, melhor encosto
Finado o solene
Implorará seu pouco

UM TROCO
UM TROCO
UM TROCO



Segunda-feira, Fevereiro 07, 2005

RISO MENINO

Passei por ela apressado
Mal dei por mim e delfina
Ficou carrancuda e distante

E debalde:

Descompassada

Imprevista

À toa

À toa

A finada - ela ( a vida ) - ascendeu do passado
E deixou-me no colo um breve riso menino.


Sexta-feira, Fevereiro 04, 2005

SEM FIM

Nasci nordestino, mas fraco, preguiçoso e sem um tico de fé. Vivo meus dias distante das margens, vou retilíneo, olho adiante o fiapo do que resta, um ponto e outro, mais outro, a mesma reta, sempre ela, a reta. O meu corpo e alma se mesclam numa esquisitice disforme, iniludível, indivisa. Não sou da videira mística, que se aninhou em unicidade eterna, nem tampouco do mundo. Não morrerei amanhã, nem depois de amanhã, não morrerei. Não, em nenhum amanhã se consuma o desfecho fatal. Morre-se sempre no presente, tempo sem chão, paredes, teto, horizontes. Nossa, o presente nunca acaba.

DELÍRIO

Um dia, ao entrelaçar algumas palavras no rabo duma noite, deu-me uma estranha sensação de aperto. Não, nada que suspeitasse doença física ou espiritual. Era um aperto indizível, possivelmente irracional. Algo dentro do meu íntimo apertava-se por apertar. E as palavras que antes iam ternas, sacrossantas, quiçá resignadas, incrustando-se amorosamente umas nas outras, pretenderam tomar, violentamente, as rédeas do percurso. Psicografia, pensei. Era nada, Ninguém do além se atreveria a regurgitar tais blasfêmias num pedaço de papel. A priori, saltou-me aos olhos duas palavras ininterruptas: DEUS MORREU. Enraivecido, inquiri os meus próprios miolos, nenhum sabia. O resto do corpo também não sabia, mas cerrei punhos e fui buscar as razões na marra. Vacherot rapidamente me contou: " Deus é o ser dos seres, a causa das causas, o fim dos fins: eis como ele é o verdadeiro absoluto". Faltou a interação ilógica, a união imponderável, a possibilidade ímpia de concordar o sujeito ( Deus, o absoluto) com a iniludível morte. Mas continuei, ia embebido em sensação de escarnecido. Com efeito, a linha tênue que, profundamente, separava-me do delírio se quebrantou. Foi aí que inexplicavelmente sussurei: ELE MORREU.


Quinta-feira, Fevereiro 03, 2005

NOITE INEXPERTA

Um dia, quando eu pousar a mão sobre o meu peito, não sei se sentirei mais do que os pulsos de um coração que lateja em sina maquinal.

Olho o mundo, esse infinito espaço fantástico, que um sol dos mais profundos ilusta grave. Mas, repentino, que é desse a lhe abarcar, vasto mundo ? Os sois vasculham inclementes entre as alcovas, os sois chovem intensos sobre os flancos de carmim, e os sois sucumbem murchos no limiar das portas, confinantes frios aos pés do mistério. E sempre resta a passagem da noite inexperta, rastro de gélida bruma, mata-borrão, virgem de marcha seca e fúnebre, cujos rangidos angustiam e sufocam os fluxos de minhas veias, pois é mais do que o sangue vertendo em brasa do coração.


O SOL DA NOITE
( Dedico a Augustos dos Anjos)

Mas, de súbito,
Fez-se instante a cor ausente
A cobrir baixadas de eternidades:
O sol da noite anunciando o tempo,
O íntimo do tempo, de crua febre,
Nua verve de soledade.

E o último bem se fez vácuo
E eu sofria séptico, imundo de covardia,
Gelava no frio seco
Sob o sol da alta noite
Que inclemente ardia.

Num rasgo de dolo cíclico,
Num falso pudor asséptico,
Encolhi-me sorrateiro,
Fui bicho irrequieto,
Desviei os olhos
Do clarão molesto

...E tão clara empedernia
Que me tomava em cerco
Anoitecendo o dia.




Quarta-feira, Fevereiro 02, 2005




VARREDURA

Ao acordar, senti-me por uns minutos
Enquanto me violava
Espiei amortecido
Não me tomava o deserto
Nem o peito em nó se desmancharia
Talvez, retalho d'alma
Talvez, não sei, e devia ?
Ao passar por mim, um fluxo como regato:
Sim, um vento frívolo me varria
Depois me varria
Casualmente me varria



RIMADINHA

Sei que ainda vou viver do aquém
Senti isto há pouco... num interminável instante

É que estive com os olhos postos no passado...

A minha história caminha vaga, é neblina...
Antes, clara... luz... Marina... cristalina...
Crsitalina

Mas em verdade o que sinto
Vibra para além da imagem
É sentimento cru, quase instinto,
Deixa pelo ar um som acre...

Espelho, vezo em carne,
Onde o vácuo é fato e alegria, saudade.



SAIA DE MIM

Tira de mim o que me pertence
Suo e penso... mais que deveras:
Deventre ainda corre o asco de fogo atroz
Que me emudece o veio
Que me bambeia as pernas

Arranca-me agora o que me pertence
Convoque por minhas entranhas o facho agreste
Viole-me em despudor por entre viegas da rota quimera

Arranca ! Arranca !
Arranca e enterre este cadáver d'alma
O crespo de luz que me temia em ficar

Arranca e deixe-me à toa em quebra-luz
Deixe-me, sim, deixe-me totalmente à toa em mim.


SOBRE MIM
Sou o Caco, Baiano de Salvador.
O IDEAL ?
Como o sol, devora-se a si mesmo.
ADEMAIS...
Ironia, verdadeira liberdade! És tu que me livras da ambição do poder, da escravidão dos partidos, da veneração da rotina, do pedantismo das ciências, da admiração das grandes personagens, das mistificações da política, do fanatismo dos reformadores, da superstição d'este grande universo e da adoração de mim mesmo. P.J. PROUDHON.
JÁ FALEI
AMIGOS
ANDRESSA
ISABEL GUIMARÃES
PRI
TARCISO
JÚLIO
ARMANDO
RONIZE ALINE
ANA
NINA
MARCOS CAIADO